Difícil encontrar no planeta alguém que não queira um cheiro para chamar de seu. Tanto – e há tanto tempo – que não seria exagero dizer: sem o advento do perfume, o mundo não teria sido o mesmo. Cleópatra, a maior bruxa da sedução de todos os tempos, talvez nem tivesse conquistado Júlio Cesar e Marco Antônio para se manter por tantos anos no poder se não fosse a “porção mágica” que ela mesma preparava a partir de óleos extraídos das flores de henna, açafrão, menta e zimbro. Napoleão, um dos mais celebrados “monarcas iluminados” do mundo, responsável por ter conquistado grande parte do continente europeu era tão viciado em perfume que certamente não teria a mesma auto-estima sem sua indefectível garrafinha de óleos de cheiro dentro da bota. Muito mais tarde, Marilyn Monroe talvez nem tivesse embalado tantos sonhos masculinos não fosse por um detalhe: as gotinhas de Channel nº 5 que a loura costumava usar no lugar da camisola para dormir. Aliás, deitar.
Especulações à parte, o fato é que a manipulação de aromas para a fabricação de óleos e incensos foi tão significativa para a humanidade que aparece em todos os tipos de registro histórico deixados pelas civilizações mais antigas, dos papiros egípcios à própria Bíblia. O frasco de vidro só entrou nessa história bem mais tarde, substituindo os recipientes de barro e resolvendo um problema enorme de conservação do precioso líquido. “Foi por volta de 200 a.C. a 300 a.C. que o frasco passou a ser utilizado”, conta a perfumista da brasileiríssima e contemporânea Natura, Verônica Kato.
Mas a essa altura, o aroma tinha papel incerto: meio sagrado, meio milagroso, meio sanitário em praticamente toda a Europa. Na falta de escova e pasta de dente, a mistura de determinadas ervas era usada como enxaguatório bucal. Mas também era aplicada sobre a pele, sobre roupas e até sobre móveis. Nessa época, surgiu na Alemanha uma combinação de alecrim, néroli, bergamota e limão que se prestava a todos os usos até então triviais para os ungüentos de ervas. E a muitos outros. Produzida na cidade de Colônia, a aqua mirabilis prometia a cura de todos os males, de dor de dente a peste. E não demorou a ser batizada de água-de-colônia.
Rebaixar o líquido milagroso à água-de-cheiro foi façanha de um dos mais famosos e perfumados conquistadores do mundo. No século 18, depois de invadir a Alemanha, Napoleão exigiu a receita de todos os remédios produzidos no país. E os fabricantes da famosa água terapêutica, que ocupavam o imóvel de número 4711 da Rua Glockengasse, em Colônia, decidiram mudar a estratégia comercial e a receita secreta. Em vez de cura, garantiriam só um cheirinho melhor aos muitos clientes. Ninguém ficou desapontado. Pelo contrário. E, de uma estação de trem para outra, o 4711 ganhou a popularidade que até hoje a mantém “com a receita original”, segundo a fabricante Muelhens GmbH e Co.KG, nas prateleiras mundo afora.
Foi numa daquelas viagens de trem, que um cangote desavisado revelou à França uma de suas maiores vocações: a fabricação de perfumes. E a partir do século 18, o mundo inteiro ficou muito mais cheiroso. Os franceses aprenderam tão rápido a fazer – e vender – perfumes que o país acabou ganhando o rótulo de berço da perfumaria internacional. Foi lá que surgiram nomes como Channel e Guerlain, responsáveis por algumas das fragrâncias mais famosas de todos os tempos, como o Channel nº 5, o mais fiel dos companheiros de travesseiro de Marilyn.
E foi lá também onde se definiram as bases da perfumaria moderna, como o uso de notas olfativas (ou seja, essências) florais, a exemplo da rosa, lavanda e alecrim, para mulheres, e cítricas ou amadeiradas, como âmbar, sândalo e limão, para homens. Atualmente, existem mais de duas mil notas em uso no mundo inteiro, segundo Verônica Kato, da Natura. Elas resultam numa média de 400 novos rótulos por ano, contra os 80 que eram lançados anualmente há apenas uma década.
“O desafio do perfumista é criar uma composição harmônica e exclusiva de notas de saída, responsáveis pela primeira sensação que o perfume causa, de corpo, ou seja, a base do perfume, e de fundo, aquelas que garantem a permanência do cheiro”, explica.

Nenhum comentário:
Postar um comentário