quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pai monstro parte 1

Estuprada na presença de seus filhos
No calabouço, seu pai disse a Elisabeth que ele usaria gás contra ela caso tentasse atacá-lo ou escapar. Sempre que ele deixava o porão, ele agia como se armasse um dispositivo perto da porta, como se estivesse ativando um sistema, como Elisabeth presumia. Mas talvez não fosse nada, exceto uma tentativa de intimidá-la.

Ela viveu em um quarto no porão até 1993. Fritzl aparentemente a visitava aproximadamente uma vez a cada três dias para levar comida -e estuprá-la. No início eram apenas os dois, mas posteriormente, após o nascimento de sua filha Kerstin, em 1988, e Stefan, em 1990, e Lisa, em 1992, Fritzl a estuprava na presença deles. Ele posteriormente adicionou um segundo quarto, e no mesmo ano ele criou espaço no porão para mais crianças ao levar Lisa -a menina na caixa de papelão- para cima.

Em defesa das autoridades de Amstetten, a carta que foi incluída com o bebê na caixa de papelão e que atualmente está anexada à sua documentação de adoção, era uma obra-prima de logro. "Vocês provavelmente ficarão chocados ao terem notícias minhas após todos estes anos, e ainda mais com uma verdadeira surpresa viva", escreveu Elisabeth, quase alegremente, apesar de estar escrevendo a carta de sua prisão de concreto. É claro, pelo menos um dos dois destinatários da carta não ficou chocado, já que foi quem ditou a carta. "Eu a amamentei por cerca de 6 meses e meio e agora ela bebe leite da garrafa. Ela é uma boa menina e come de tudo na colher." Era uma carta cheia de um senso de normalidade, e parecia apenas natural que Elisabeth pediria educadamente aos seus pais que nem tentassem encontrá-la. Era como se estivesse pedindo que respeitassem e tolerassem seu estilo de vida alternativo.

Novamente, as autoridades ficaram suficientemente impressionadas, nem mesmo se perguntando por que Elisabeth confiaria sua filha a pais dos quais teve necessidade de fugir. Em vez disso, o órgão de bem-estar do menor de Amstetten escreveu, cinco dias depois da aparição de Lisa à porta de Fritzl: "O sr. e sra. Fritzl se recuperaram do choque inicial. A família Fritzl está cuidando amorosamente de Lisa e deseja continuar cuidando dela". Em um ano os Fritzls adotaram Lisa. Mas a criança seguinte, Monika, de nove meses de idade, surgiu em seguida, em 16 de dezembro de 1994, logo após a meia-noite. Desta vez o novo bebê não foi deixado à porta em uma caixa de papelão, mas foi encontrado no carrinho de bebê de Lisa, na entrada da casa de Fritzl. O telefone tocou poucos minutos depois, e quando Rosemarie Fritzl respondeu, ela estava convencida de que era sua filha Elisabeth do outro lado da linha, pedindo para que cuidassem de sua filha. "Eu acabei de deixá-la à sua porta", disse a pessoa que ligou.

Rosemarie Fritzl estava em choque, não apenas por sua filha aparentemente ter entrado em contato de novo. A família tinha acabado de receber um número de telefone não listado. Como Elisabeth sabia o número? Ela falou para as autoridades de Amstetten sobre o número, e como era "completamente inexplicável", e seus comentários foram anotados nos autos. Mas havia uma explicação: Josef Fritzl. Ele não apenas sabia o número, como aparentemente usou uma gravação da voz de Elisabeth para fazer a ligação.

No calabouço, atrás de uma porta de metal reforçada com concreto que pesava 300 quilos, assim como uma porta de aço adicional, a vida prosseguia em seu ritmo normal: luzes acesas, luzes apagadas, luzes acesas, luzes apagadas, luzes acesas, estupro, luzes apagadas. Alexander nasceu em 1996 e, como Monika, foi enviado para cima e adotado pelos Fritzl. Seu irmão gêmeo Michael morreu logo após o parto. Elisabeth diz hoje que seu pai incinerou o corpo da criança em uma fornalha. O último filho, Felix, nasceu em 16 de dezembro de 2002. O menino teve que permanecer no calabouço com sua mãe e seus dois filhos mais velhos, Kerstin e Stefan. Sua esposa, Rosemarie, não tinha condições de cuidar de outra criança, Fritzl disse posteriormente para as autoridades durante seu interrogatório.

As quatro pessoas que foram forçadas a viver no porão sem janela por todos aqueles anos vegetavam como os únicos sobreviventes de um holocausto nuclear. Para eles, a especulação da Guerra Fria, sobre como seria para as pessoas que nunca poderiam sair novamente e voltar à superfície da Terra, era uma realidade.

Eles tinham um contato com o mundo exterior -por meio de um velho aparelho de TV. Era realidade, mas para as crianças que viviam no porão de Fritzl, era como assistir a um filme. Imagens de campinas, mosquitos e do sol poderiam muito bem ser parte de alguma fantasia da Terra do Nunca, porque aquelas crianças nunca sentiram o cheiro de uma campina, sentiram a coceira de uma picada de mosquito ou o calor do sol em sua pele. E os carros, espaçonaves, celulares e sabres de luz? Aquilo tudo não era apenas ficção científica?

Eles sabiam que chuva existia e que havia oceanos, mas sabiam destas coisas sem entendê-las ou experimentá-las. E apesar de Josef Fritzl não tê-los matado, ele ainda assim os privou de suas vidas.

Segundo a psiquiatra Haller, Fritzl era movido por um alto grau de narcisismo derivado de sua onipotência. Mas há também outra forma de narcisismo que poderia ser igualmente relevante neste caso. Como o narcisismo de um colecionador que compra pinturas roubadas para que possa tê-las para si mesmo, Fritzl manteve seus filhos nesta câmara. Cada vez que ia vê-los, para passar uma hora ou duas com eles, ou para levar alimentos e medicamentos à noite, ele conseguia reafirmar a exclusividade de sua propriedade, o que o tornava ainda mais sem igual.

Um dos aspectos mais incompreensíveis deste caso é que as crianças que viviam na parte de cima de sua vida dupla tiveram infâncias relativamente normais. Os Fritzl aparentemente não mediam esforços para "encorajar os filhos de muitas formas", confirmou o órgão de bem-estar social local em seus relatórios regulares. Elas eram expostas a "ginástica para crianças" e "livros e fitas-cassete da biblioteca municipal", escreveram os assistentes sociais, concluindo que os Fritzls "são muito amorosos com seus filhos".

Fritzl era sem dúvida rígido com seus filhos, mas não era destrutivo, talvez porque era sua esposa Rosemarie que cuidava das crianças. Quase todo dia, ela levava seus netos para suas aulas de música, onde Lisa aprendeu a tocar flauta e Monika e Alexander o trompete.

"Todos ficavam surpresos em quão forte ela era", diz um dos professores de música das crianças. Apenas em uma conversa, diz o homem, a voz dela embargou e lágrimas vieram aos olhos. Ela estava lhe contando sobre Elisabeth, sobre como tinha fugido e ingressado em uma seita, e sobre quanto sentia saudades da filha. Segundo o testemunho de Elisabeth, a mãe não sabia nada sobre seu cativeiro, nem esteve envolvida. Era apenas o pai, diz Elisabeth, quem lhe fornecia alimentos e roupas.

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