quarta-feira, 7 de maio de 2008

Pai monstro parte 2

Ganhando uma filha e perdendo um marido
A semana em que Rosemarie Fritzl se reencontrou com sua filha e perdeu seu marido começou com um choque no calabouço. Na noite de 18 de abril, a condição da filha mais velha de Elisabeth, Kerstin, 19 anos, se deteriorou rapidamente. Ela sempre foi doente, mas agora estava tendo cãibras e mordia seus lábios até sangrarem. Era uma infecção, não uma doença hereditária, mas ainda assim estava mortalmente doente. Elisabeth, a mãe, implorou que Fritzl levasse a menina a um hospital.

Fritzl cedeu. Teria sido por piedade, após tantos anos de crueldade? Ou talvez pelo pânico da idéia de ter que se livrar do corpo de uma mulher adulta? Seja qual tenha sido o motivo, Fritzl foi incapaz de carregá-la sozinho e Elisabeth teve que ajudar. Foi assim que, nas primeiras horas da madrugada de 19 de abril, uma mulher de 42 anos, que passou metade de sua vida no subterrâneo, viu a luz do dia pela primeira vez em muitos anos.

Foi por apenas poucos momentos antes de Elisabeth ser forçada a voltar para seu calabouço, onde ela passaria a última semana de seu cativeiro. Fritzl chamou uma ambulância. Ele teve que inventar outra história, mas desta vez não seria suficiente para salvar sua pele. O mundo acima e o mundo subterrâneo começavam a se aproximar, lentamente se tornando um, e independente de quanto Fritzl tentasse, ele não podia mais impedir o inevitável.

Naquela mesma manhã, às 10h37, a polícia recebeu um telefonema do hospital público de Mostviertel-Amstetten para informar a entrada de uma "pessoa do sexo feminino" misteriosa. A paciente não apresentava resposta e estava em estado crítico, e seus sintomas sugeriam ter sido altamente negligenciada. O homem que a acompanhava era um Josef Fritzl, de Ybbsstrasse, nº 40.

Fritzl, que tinha fornecido uma explicação à polícia, lhes disse que ouviu repentinamente barulhos na escada e que encontrou uma jovem apoiada, apaticamente, contra a parede no térreo. Ela carregava uma nota, Fritzl disse à polícia, na qual Elisabeth escrevia que a garota era sua filha Kerstin e que precisava urgentemente de cuidados médicos.

Os médicos não sabiam ao certo qual era o problema de Kerstin. Eles especulavam que podia ser epilepsia, ou talvez outra coisa. Incapazes de determinar o que havia de errado com ela a tempo, eles precisavam de mais informação -da mãe.

A polícia lançou uma grande investigação. O caso de Elisabeth Fritzl, que ainda estava oficialmente classificada como "desaparecida", foi reaberto. Josef Fritzl repetiu sua velha história sobre a seita, e então apresentou seu às na manga de costume: uma "nova" carta de sua filha supostamente perdida. Na carta, datada de janeiro de 2008, ela escreveu que seu filho Felix tinha adoecido em setembro, e que ele tinha ataques epiléticos e sintomas de paralisia, mas se recuperou. Kerstin, dizia a carta, também teve problemas de saúde, incluindo sintomas circulatórios e dores no peito. Mas, a carta prosseguia, Elisabeth, Stefan e Felix logo estariam em casa, e talvez até poderiam comemorar aniversários com Lisa e Kerstin.

A distração funcionou novamente -pela última vez- ou pelo menos deu a Fritzl mais tempo. A carta foi postada na cidade de Kematen an der Krems, a cerca de 70 quilômetros de Amstetten. Isso levou os investigadores a se concentrarem na cidade errada. Naturalmente, nenhum dos médicos que interrogaram nos arredores de Kematen tinha qualquer lembrança de uma mulher chamada Kerstin. A polícia ficou cada vez mais perplexa. Será que esta seita misteriosa existia?

Na manhã de segunda-feira, 21 de abril, o telefone tocou no escritório de Manfred Wohlfahrt, a autoridade encarregada de seitas na diocese de Saint-Pölten. A presença imediata de Wohlfahrt, que não foi consultado durante 24 anos, foi requisitada na delegacia de Amstetten. A polícia lhe mostrou a primeira carta de Elisabeth e a nota que Kerstin estava carregando. As cartas ofereciam quaisquer pistas de onde a mulher que as escreveu podia estar? O estilo e escolha de palavras sugeriam uma seita?

Wohlfahrt estudou as cartas azuis, escritas manualmente de forma que pareciam caligrafia, que foram reunidas em sentenças "estranhamente homogêneas, construídas e não muito autênticas". As cartas pareciam "ditadas", disse Wohlfahrt. Sua conclusão era de que não havia nenhuma evidência de seita, uma avaliação que chegou 24 anos tarde demais para Elisabeth Fritzl.

A situação começava a ficar cada vez mais difícil para Josef Fritzl. A televisão austríaca noticiou o caso. Até então, Fritzl era consistentemente caracterizado como um "pai desesperado", mas Elisabeth, em seu calabouço, também assistia a história. Ela soube que os médicos estavam à procura da mãe de Kerstin e que era uma questão de vida ou morte para a garota. No sábado, 26 de abril, Josef Fritzl, concluiu que só havia uma forma de salvar Kerstin e preservar sua história. Ele permitiu que sua filha desaparecida reaparecesse, desta vez definitivamente. Quando sua esposa Rosemarie e as outras crianças estavam fora de casa, ele retirou Elisabeth, Stefan e Felix do calabouço.

A polícia ainda não sabe ao certo o que aconteceu na casa durante as poucas horas que se seguiram. Teriam novos acordos sido acertados sobre o que Elisabeth diria, como explicaria os últimos 24 anos? A polícia recebeu um chamado do hospital naquela noite, para informar que indivíduos suspeitos visitaram Kerstin. Eles correram para o hospital, chegando a tempo de pegar Josef Fritzl e Elisabeth. Ambos foram levados para a delegacia de polícia onde foram interrogados separadamente. Elisabeth só se abriu após lhe ser assegurado que nunca teria que ver seu pai de novo e que seus filhos e sua mãe seriam protegidos.

No espaço de apenas duas horas, Elisabeth contou a história de seus 24 anos de cativeiro. Às 00h15, quando os oficiais completaram as três páginas de minutas do interrogatório, eles sabiam que seria o caso mais importante da vida deles.

Nenhum comentário: